04 janeiro 2010

Até que a morte os separe!

Três amigos inseparáveis, Cristina, mãe solteira; Ramon, gay de meia idade e Lilian, empresária independente. Todos eles muito risonhos.
Início da tarde de um domingo de sol com o céu repleto de nuvens. Lilian dirigia o carro com Cristina no banco do carona e Ramon no banco de trás, de ressaca e sonolento. Os amigos viviam as gargalhadas, risos sonoros e saborosos. Tudo era motivo de graça. Da vizinha neurótica à cunhada aleijada, às vezes eram sádicos e impiedosos, perdiam o amigo mas não a piada. O trio era famoso no círculo social, haviam poucos corajosos que os convidavam para alguma festa. As pessoas tinham medo de virar motivo de chacota, mesmo assim viravam.
Tinha também os que morriam de invejo do “trio gargalhada”, como eles eram chamados; os recalcados não se conformavam ao ver tamanha alegria. Não precisava muito para que caíssem na gargalhada, o esmalte na unha de Lilian poderia ser um bom motivo. O encontro de Ramon com um garoto de programa era diversão garantida por 3 horas, até mesmo para o próprio Ramon.
Naquele dia, os três riram tanto que até esqueceram para onde deveriam ir, oque acabou causando mais gargalhadas. Cristina comentava sobre o namorado da filha adotiva (o cara era um chato, além de ser “politicamente correto”, enfim, um porre) e ria.
Ramon pouco falava, só bocejava e ria impregnando o carro importado de Lilian com seu bafo de uísque.
Lilian ria, gesticulava, comentava enquanto tentava manter o carro em linha reta. Contava sobre mais uma cantada de seu chefe pseudo-mulherengo, na verdade ele era impotente. Assunto o qual era motivo de risadas incessantes causando dores na barriga e falta de ar.
Ramon comentava sobre a cobradora de ônibus que ele achava estar apaixonada por ele, na verdade ela era lésbica e queria dicas para ser mais feminina.
Poucas eram as vezes que conversavam sério, coisas intimas e sentimentos mais sinceros eles não compartilhavam entre si, não desejavam que seus segredos e medos virassem piada. Separados eram pessoas tristes, amarguradas e depressivas. Juntos eram a perfeita expressão da alegria.
Cristina tinha um riso fino, choroso. Ramon ria alto, espalhafatosamente. Lilian tinha o riso grosso, contido, encorpado. As três risadas combinadas produziam um som curioso, único.
Finalmente chegaram ao seu destino, a casa da mãe de Lilian. Ainda assim não se lembraram oque foram fazer lá e claro, riram ainda mais.
Desceram do carro rindo, entraram na casa rindo e só se controlaram quando perceberam o que estava havendo ali. Era o velório da mãe de Lilian que jazia no caixão com um flor imensa no cabelo. Ramon e Cristina desataram a rir desenfreados, Lilian desatou a chorar e os três nunca mais se falaram.

O olhar


Que olhar é esse que me enobrece?
Me entorpe, me adormece e me esquece?
Sinto falta desse olhar que acompanha com gana de aventura.
Me deixam em dúvida sobre quem fui, quem sou, ou, se sou.
Se sou, só serei sobras.
Se fui, só restaram sombra.
Nesta pele nua meus pelos apelam por apenas mais um toque,
um gracejo, um lampejo.
Boca.
Cavidade circundada em vermelhos lábios.
Língua que me inunda.
Lábios doces que me envenenam.
Vou de pele em pele na busca de uma que me apegue.
Tua presença me persegue,
me segue por mais que eu renegue.
Teu abraço me conforta,
teu corpo como uma porta,
que ao atravessar nada importa.
Sigo só como um velho catimbó,
carregando na garganta ainda aquele nó.
Atravesso templos, vila e cidadelas como um falso ateu.
Na obsessão daquilo que perdeu.
Seu juramento não faz mais sentido
já que seu velho jazia partido.
Você não me ouve?
Minha alma grita por socorro.
Mais uns dias e ela há de se calar.
Minha agonia tende a abrandar.
Veja só!
O tempo parou.
E eu, ainda sinto falta desse olhar,
do seu olhar.
Para mim é como uma alma em dois corpos.
Um preso ao outro,
outro preso a mais outro,
seguindo todos, aquele olhar.

Aquele dia

Corpos inertes no chão
Cheiro de morte no ar, olhos ardidos
Peito dilacerados em dor, choro seco
Um caminhar lento, tropego.
O dia ensolarado destoa com a desgraça.
Tudo perdi,
nada ganhei,
não sorri,
muito chorei.
A linha reta existe, mas não pra mim.
Curvas e desvios na rua reta, há móveis, corpos, roupas
e dor espalhados por toda a via.
Há um gosto amargo na boca,
há solidão entalada na garganta.
Para que sol, se meu dia é só escuridão?
Pele pálida,
sangue seco,
cenhos inexpressivos,
olhares distantes distorcidos.
Pés formigando,
tecido que incomoda,
vontade de desfalecer em ira.
Sucumbir à gravidade,
nos destroços permanecer...
assim... inertes como calçadas,
sempre deitadas à beira da rua.
Seja luz ou escuridão,
sempre lá estarão,
sendo sempre despercebidas
pelos próximos que por aqui passarão.
Dia após dia, noite após noite.
Toda tristeza acompanhada por lágrimas e solidão.
Sonhos e vidas perdidas nesta imensa vastidão.

Autor: Claudio Nanti