30 agosto 2010

Você é Feliz?


_ Moço, você é feliz?
_ Como assim?
_ Como “como assim”? Ou se é feliz ou não é.
_ Bem, eu acho que sim.
_ Acha? Quer dizer que não tem certeza?
_ Não estou entendendo onde você que chegar.
_ Qual seu nome?
_ Cícero.
_ Muito prazer, sou Bianca. Agora veja bem, eu fiz uma simples pergunta, se você é feliz e você não soube responder.
_ Espere aí, você me pegou de surpresa, garota.
_ Em primeiro lugar, não sou mais uma garota, em segundo, a felicidade sempre nos pega de surpresa.
_ É você me pegou nessa.
_ Sim eu sei, além disso ela nos deixa confuso.
_ Como assim?
_ Lá vem você com esse “como assim”. É simples, foi só eu falar em felicidade que você se embananou todinho.
_ Eu já falei que você me pegou de surpresa.
_ Sobre isso nós já conversamos. Veja minha mãe, por exemplo, ela acha que é feliz por ter um marido e uma filha, uma família em si. Só que o marido dela tem uma amante, e é um pai relapso; a filha está fugindo de casa porquê é apaixonada pelo batateiro.
_ Pelo batateiro?!
_ É, batateiro sim, qual o problema?
_ Não, nenhum...
_ Ótimo, agora eu te pergunto: Minha mãe é feliz?
_ Claro que não!
_ Por que não? Se ela tem tudo que uma mulher de classe média sonhou ter?
_ Oras, você já deu a resposta para esta pergunta. Seu pai é infiel e relapso,
e você está indo embora de casa.
_ Sim, concordo mas independente disso, a casa é harmonia pura. Ela faz de conta que a amante não existe, que a filha é apenas uma pré-adolescente e que o sentimento pelo batateiro não passa de pirraça para chamar atenção. Bem assim, cada um na sua.
_ É vendo por esse ângulo...
_ Está vendo? Te deixei ainda mais confuso, aliás eu não, a felicidade.
_Ah, é mesmo? E você menina, é feliz?
_ Eu sou.
_ Como? Você está fugindo de casa?
_ Você ainda não entendeu. O que é felicidade para um, pode não ser para outro. Não existe felicidade universal. O que é ser feliz para mim, pode não ser pra você. O ser humano ainda não chegou ao nível de compartilhar sua própria felicidade. Sou feliz porque estou fugindo da harmonia e do marasmo, a maioria associa a felicidade ao ócio total e absoluto, a famosa “sombra e água fresca”, nem querem saber de onde vem a sombra, ou quem, vai trazer a água. Felicidade, moço, é o desafio, é a busca por algo que te completa, claro que sempre nos falta um pedaço e sempre nos faltará. Felicidade é isso, a busca por algo que nunca encontraremos: a verdadeira felicidade.
_ Não sei o que dizer.
_ Que tal um tchau? Aí vem meu ônibus.

Perda [ diálogo solto ]

_ Bia.
_ Oque foi Felipe?
_ Cadê a mamãe?
_ Foi embora.
_ Por que?
_ Não sei.
_ Ela não gostava da gente?
_ Gostava sim.
_ O papai mandou ela embora?
_ Não.
_ Por que ele chora tanto?
_ É saudade dela...
_ Então, ele deveria ir atrás dela e trazê-la de volta.
_ Um dia ele vai atrás dela, mas não pode trazer a mamãe de volta.
_ Mas porque não, Bia?
_ O papai não sabe onde ela está.
_ E você, sabe?
_ Não, eu não sei.
_ Quem que sabe?
_ Ninguém sabe.
_ Só Deus sabe.
_ Então vamos perguntar pra ele.
_ Não adianta, Ele não responde.
_ Deus não gosta da gente.
_ Talvez não.
_ Mas oque eu fiz pra ele não gostar de mim?
_ Nada, Felipe, não precisa fazer algo para que Deus tome oque amamos.
_ Então Deus é mal?
_ Não sei te dizer nem que sim, nem que não.
_ Sempre achei que Ele fosse bom.
_ Às vezes é, outras, parece que não.
_ Como assim?
_ Os adultos dizem que são coisas da vida.
_ Que coisas são essas?
_ Não sei, ninguém vivo sabe.
_ Os mortos sabem?
_ Talvez.
_ Eu tenho medo dos mortos, Bia.
_ Você tem medo da mamãe?
_ Não, eu não.
_ Ela morreu, Felipe.
_ É diferente.
_ Oque é diferente?
_ A nossa mãe oras.
_ Não entendi.
_ A mamãe é uma morta especial, ela me ama.
_ Isso é verdade.
_ Papai também vai morrer?
_ Vai.
_ E você e eu?
_ Demora?
_ Pode ser que sim, pode ser não. Porquê?
_ Tô com saudade da mamãe.
_ Eu também Felipe, eu também.

Meu Nome

Quem é você?

Eu não te conheço mais.

Olha para mim!

Até o meu toque você tem evitado.

Por vezes tem me ignorado.

Por quê choras?

Seria culpa?

Vergonha?

Fala comigo!

Não entendo, passamos por situações tão adversas.

Eu te ajudei, você me ajudou, então,

por qual motivo você não se dirige mais à mim?

Deixe-me beijar, nem que seja levemente,

a maçã do seu rosto.

Você bem sabe que este seu comportamento

não te levará à lugar algum.

Me dê sua mão, deixe-me aperta-la.

Deixe-me te dar-te forças para superar suas vicissitudes.

Permita que eu seque suas lágrimas.

Deixe-me ver se ainda há humanidade em sua alma.

Não quer falar comigo?

Não tem problema,

eu leio seu olhar.

Quanta dor e quanta mágoa reside em seu espírito.

Seu erro maior foi pensar que amor deveria ser único,

exclusivamente voltado à você.

Por quê tanto egoísmo?

Tanto meu Pai, quanto minha mãe olharam por você,

que poderia ter tudo se assim seu coração desejasse.

Nem mesmo meu nome você se lembra mais.

Não tem problema,

estou aqui para lembrar-te.

Ouça bem e não esqueça jamais

meu nome é

Jesus Cristo de Nazaré.

Irmãos

Olho para o lado e meu irmão eu vejo.

Ingênuo, maldoso, manipulador e invejoso. As vezes me vejo refletido nele, claro que, não sou mais assim, porém já fui e essa visão me incomoda.

Vejo-o tão novo e tão amargurado, não é difícil prever o seu futuro. Será de dor e sofrimento até que possa aprender que fazemos parte de algo maior, aprender que não vivemos sozinhos e que pode ser mais humilhante ainda depender dos outros para que tenhamos o mínimo para uma sobrevivência digna.

Sem máscaras. Meu amor por ele é ferido e morto a cada nascer do sol. Já o amei mais, hoje o amo muito menos.

Certa vez me perguntei se não seria eu o motivo principal de ele ter adquirido tal personalidade, isso me causou sentimento de culpa e auto-punição.

Seria ótimo se ele pudesse perceber quão maravilhoso e maléfico pode ser o mundo lá fora.

Eu sofro, pois vejo em seus o brilho do ódio, a energia da vingança e a visão distorcida de seu universo interior. Meu irmão e eu vivemos paralelamente, cada um em sua dimensão e percepção da realidade e sentimento. Sentimos basicamente as mesmas coisas, só que em intensidades diferentes.

Vivemos sob o mesmo teto, habitamos mundos diferentes, distintos e distantes.

Somos filhos da mesma mãe e pais diferentes.

Houve uma época que minha mãe me amava mais, hoje ele é o felizardo. Talvez esse fato impulsione, a arrogante e onipotente maneira com que ele se comporta.

Você já amou tanto uma pessoa que acabou se transformando em uma cópia dela? E isso fez com que lhe causa-se frustrações e seu amor tenha virado ódio?

Noite passada sonhei que caminhava por um campo de flores, ao meu lado meu irmão. Eu estava feliz, meu peito irradiava amor e compaixão, ele estava triste.

Ao acordar me senti infinitamente alegre, lembrei-me do sonho e das flores e um pensamento veio à minha mente.

“Lindas flores não é? São amarelas da cor da esperança e da transformação, portanto não esqueça, nunca perca a esperança.”

Lágrimas de Sangue!

Tudo parecia ir tão bem quando de repente me deparei com esse turbilhão de sentimentos estranhos, contraditórios e perturbadores. Estava tomado de uma felicidade imensa e uma sensação de realização pessoal quando percebi que nada parecia fazer sentido para mim. Olhei para o lado e me vi sozinho, mais uma vez, essa amargura, esse buraco maldito no peito e a pergunta que há anos martela meus pensamentos: O que falta para eu ser feliz?
Realmente não sei, estou triste, sozinho, vivendo uma vida que não é minha, vivendo um sonho que não me pertence, nada disso é meu.
Luto contra um sentimento ruim, um sentimento que sei, não deveria existir no meu coração, mas ele existe e tem se feito cada vez mais e mais presente nas horas de solidão que me encontro no decorrer do dia.
Olho ao meu redor e não reconheço a vida que levo, vejo as pessoas sorrindo, vejo felicidade na vida alheia e não vejo na minha e me pergunto: Quando será a minha vez? Quando? Será que já não sofri demais nessa vida? Será que fui tão desgraçado assim com as pessoas para merecer tais amarguras?
Vivo em constante conflito com o meu eu, com meus sentimentos e pensamentos. Não quero assumir, mas sinto inveja sim de outros. Pode parecer bobagem, mas isso me incomoda, não sei o que fazer para mudar isso. Perdi tanto tempo com coisas tão estranhas e às vezes ainda acho que continuo perdendo tempo. As vezes acho que a minha vida não passou de uma grande perda de tempo.
Claro que tive meus momentos de felicidade, mas será que eles eram reais? Ou será que não passavam de ilusão de um ser triste e solitário, descontente com tudo e com todos?
Creio que não devo encontrar tão cedo respostas para tais indagações, mas será que existe algum ser, energia ou espírito que possa me ajudar a diminuir essa sensação horrorosa que carrego dentro de mim?
Me sinto podre, sujo, feio, maltrapilho... a impressão que tenho é que somente os outros é que são felizes... Será?
Ou será que, assim como eu, todos também não estão vivendo uma vida de ilusões? Uma vida a qual ninguém sabe bem o que quer ou qual caminho seguir.
Devo acreditar em Deus ou no Demônio? Devo fazer o bem ou o mal?
Realmente não sei, há anos clamo ao Universo por respostas e por auxílio, algumas vezes até consegui alguma força, mas assim como meus raros momentos de alegria, essa força tem se esvaido cada vez mais, e com mais rapidez.
Não sei, não sei, não sei. Não sei se tudo que passei até hoje não foi em vão. Prefiro pensar que não, mas às vezes fica tão dificil.
O buraco aumenta a cada segundo, e o choro se torna cada vez mais sofrido, é como se cada lágrima que salta dos meus olhos me rasgassem por dentro causando feridas que não cicatrizam!
Pai, me ajuda!